Palavra de Stela fala sobre a vida e obra de Stela do Patrocínio

Palavra de Stela

Durante o mês de julho eu tive a oportunidade e o prazer de acompanhar 4 ensaios abertos do espetáculo “Palavra de Stela”, que volta para uma segunda temporada à partir de hoje, dia 01/09, e vai até 29/10, no Núcleo Experimental, em SP.

A peça, que tem dramaturgia e direção de Elias Andreato, é baseada na obra e vida de Stela do Patrocínio, vivida por Cleide Queiroz. Stela do Patrocínio foi uma poetisa brasileira sobre a qual pouco se sabe. Acredita-se que nasceu em 1941 e faleceu em 1997, na Colônia Juliano Moreira, local em que passou mais da metade de sua vida internada.

A Colônia Juliano Moreira era um manicômio localizado no Rio de Janeiro, na região de Jacarepaguá, que durante os anos 80 recebeu oficinas conduzidas pela artista plástica Nelly Gutmacher para as internas da ala feminina.

Conversando com o Elias e com a Cleide, que se debruçaram sobre os exíguos registros dos quais se tem conhecimento sobre Stela do Patrocínio, ficou claro como alguns pontos da vida da poetisa e dos envolvidos na montagem se entrelaçaram para compor essa peça delicada e comovente.

Palavra de Stela

O projeto começou a tomar corpo em 2004, quando Elias leu o livro “Reino dos Bichos e dos Animais é o Meu Nome”, organizado pela poetisa, filósofa e psicóloga Viviane Mosé, com as gravações de Stela do Patrocínio. Vamos voltar por um instante para os anos 80, quando as oficinas estavam acontecendo na Colônia. Stela do Patrocínio não tinha interesse por elas, mas Nelly Gutmacher percebeu em sua fala uma qualidade literária única, e propôs deixar um gravador para que Stela gravasse seu falatório.

“Já não tenho mais voz
Porque já falei tudo o que tinha que falar
Falo, falo, falo, falo o tempo todo
E é como se eu não tivesse falado nada”

Stela do Patrocínio

Foi somente em 2001 que essas falas foram transformadas em uma publicação, tendo sua forma respeitada pelo ritmo imposto por Stela nas gravações.

Cleide Queiroz sempre aponta que, não fosse por Nelly Gutmacher e seu projeto na Colônia, Stela do Patrocínio provavelmente não existiria. Em todo o período em que ficou internada não há nenhum registro de que tenha recebido visitas e não se tem conhecimento de parentes vivos. Esse é um dos aspectos pontuados na peça, a questão da identidade e do reconhecimento como pessoa. Stela do Patrocínio passou mais de metade de sua vida internada, sem poder sair, sem ter possibilidade de se colocar como cidadã, como pessoa.

Outra faceta da vida da poetisa que se cruza, no processo de construção do espetáculo, com a vida dos realizadores, é a sua doença. Stela do Patrocínio foi diagnosticada como esquizofrênica, assim como a mãe da atriz Cleide Queiroz. Ao longo de sua vida Cleide conviveu com a doença de perto, tendo que se responsabilizar pelas internações da mãe, e também em seu trabalho, já que passou 10 anos trabalhando em um hospital. A doença mental acaba se tornando um fio de relação com outros artistas no espetáculo, até chegar ao ponto de não ser possível identificar se a fala é de Stela, de Fernando Pessoa, de Antonin Artaud, entre outros. A loucura e a busca pelo divino se encontra em todas essas figuras. A doença então se torna um fator de inclusão, não de exclusão.


Em um dos ensaios abertos também pude ouvir a Cleide Queiroz colocar a questão da mulher negra e suas batalhas. Stela do Patrocínio passou sua vida presa, e Cleide faz dessa montagem uma homenagem a tantas outras mulheres que, mesmo em suas casas, estão presas, seja pela pressão da sociedade, seja por estarem em relacionamentos abusivos, ou ainda por terem que abrir mão de seus sonhos para poder sustentar um lar e filhos.

Há, no entanto, um ponto que quebra essa relação de identidade com a poetisa. Se, por um lado, Stela do Patrocínio esteve quase sempre só e essa condição é evidente em sua obra, Cleide Queiroz esteve cercada de muitos amigos, muito carinho e muito amor ao longo de todo processo. Amigos de longa data se uniram para que a realização dessa montagem pudesse se concretizar e o resultado é incrível.

“Palavra de Stela” emociona, nos faz pensar, chorar e rir. Não deixem de conferir!

 

Serviço:

Palavra de Stela
De 01/09 até 29/10
Sextas às 21h30 | Sábados às 21h | Domingos às 19h
Núcleo Experimental – Rua Barra Funda, 637, Barra Funda
Inteira: R$ 40,00 | Meia: R$ 20,00
Compras online aqui.

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Tiago Barizon

Tiago Barizon é produtor executivo e artístico, por profissão, com mais de 15 anos de experiência no mercado cultural e corporativo. Também é redator, cozinheiro e músico, por opção, já faz vinte anos. Iniciou o DescubraSP para compartilhar o resultado de suas andanças por São Paulo.

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  1. Pingback: Que tal ir ao teatro de graça? Vamos sortear ingressos para "Palavra de Stela" | DescubraSP - Cultura, Gastronomia e Consumo Sustentáveis e Alternativos 13/09/2017

    […] no final do mês sobre o retorno do espetáculo “Palavra de Stela” no Teatro do Núcleo Experimental. Agora, em parceria com a CIC […]

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